Veneno de aranha pode gerar novos medicamentos

06/09/2018

     
Doutores Marcus Vinicius Gomez e Maria Elena de Lima Perez Garcia conduzem pesquisas que podem revolucionar o mercado farmacêutico.

Extrair o veneno de aranhas, serpentes, escorpiões e outros animais peçonhentos, purificar as toxinas e produzir peptídeos sintéticos, objetivando propor novos medicamentos com função analgésica, antibióticos ou até mesmo medicamentos para tratar a disfunção erétil. Esses são alguns exemplos dos estudos desenvolvidos na área de Toxinologia da Santa Casa BH Ensino e Pesquisa dentro do programa de Pós-graduação “stricto senso” em Medicina/Biomedicina.

Os pesquisadores – mestrandos e doutorandos – contam com o apoio de uma equipe conceituada, formada pelo Doutor em Bioquímica e Imunologia pela Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG), Marcus Vinicius Gomez, e a Doutora em Neurociências pela Université D'Aix Marseille II (França), Maria Elena de Lima Perez Garcia. “Ficamos muito felizes em reunir os dois. Hoje, possivelmente, temos a melhor equipe de Toxinologia do Brasil”, comemora o coordenador do programa de Pós-graduação, Dr. José Augusto Nogueira Machado.

Os venenos dos animais utilizados nas pesquisas são, em sua maioria, disponibilizados pela Fundação Ezequiel Dias (Funed). “É importante enaltecer o trabalho pioneiro do professor Carlos Ribeiro Diniz, que começou a purificar as toxinas a partir do veneno bruto, e disponibilizar para os grupos de pesquisa”, lembra Dr. José Augusto.

Os estudos para utilização de toxinas com atividades terapêuticas consistem em purificar essas toxinas a partir do veneno bruto, por meio de métodos bioquímicos. Frações altamente purificadas são testadas em atividades biológicas. “Com ajuda da bioinformática, aumentamos a atividade e diminuímos a toxicidade, por exemplo. O resultado do trabalho realizado com moléculas naturais permite a criação de novas linhas de medicamentos à base de peptídeos sintéticos”, explica Dra. Maria Elena.

Contra disfunção erétil

Pesquisas altamente promissoras – algumas em fase de testes clínicos (com seres humanos) – demonstram o grande potencial de toxinas como a da aranha-armadeira (Phoneutria nigriventer). Uma delas é o estudo iniciado na Universidade Federal de Minas Gerais (que será continuado na Santa Casa BH Ensino e Pesquisa) pela Dra. Maria Elena de Lima Perez Garcia, que a partir de um peptídeo obtido do veneno, sintetizou um derivado (peptídeo sintético), que não é tóxico e que elimina o problema da disfunção erétil, sem as contraindicações ou advertências dos medicamentos atuais. A bula do viagra, por exemplo, adverte que “existe um grau de risco cardíaco associado à atividade sexual” e recomenda avaliação médica antes de iniciar o uso. Já o medicamento derivado da toxina da aranha-armadeira não requer as mesmas precauções. Os testes realizados até agora mostram que o peptídeo sintético não apresenta nenhum efeito no coração, na pressão arterial ou outros efeitos colaterais. Os peptídeos sintéticos repetem a eficiência dos peptídeos naturais, obtidos do veneno bruto.

Dra. Maria Elena revela que bons resultados já estão sendo confirmados. “O peptídeo sintético já demonstrou que recupera a função erétil em animais acometidos por doenças como diabetes e hipertensão. Sabe-se que indivíduos diabéticos ou hipertensos têm alta incidência de disfunção erétil. A grande novidade é que este peptídeo pode ser aplicado de forma tópica [creme, pomada, gel, etc.]. Um grupo de homens e mulheres saudáveis, em Campinas, participou de um teste piloto e foi comprovado aumento de 100% da pressão sistólica na região pubiana, sem alterar a pressão arterial, o que indica atividade”.

A descoberta do medicamento contra a disfunção erétil foi possível a partir da constatação de que um dos sintomas causados pela picada da aranha-armadeira em animais machos ou seres humanos do sexo masculino é a ereção. Entretanto, é preciso ter em mente que o veneno é altamente tóxico. Já o produto sintético não mostrou nenhuma toxicidade para os animais testes ou para o grupo de seres humanos saudáveis que se submeteram ao teste. “É possível que tenhamos um medicamento diferenciado, para ser utilizado por homens e também por mulheres. A patente foi transferida para a empresa Biozeus, que busca a parceria de uma grande indústria farmacêutica, visando realizar os testes clínicos e a produção do medicamento”, explica a Dra. Maria Elena.

Toxina transformada em analgésico

Outro estudo que demonstra resultados promissores e tem como base os peptídeos da aranha-armadeira é coordenado pelo Dr. Marcus Vinicius Gomez. Entusiasta da toxina da Phoneutria nigriventer e suas potencialidades, ele é um dos pioneiros em pesquisas com o veneno. “Em 2008 publicamos o primeiro trabalho comprovando a ação analgésica da toxina dessa aranha. Na época, já estava autorizado nos EUA o uso, por via intratecal, de uma droga analgésica obtida de um caramujo marinho [Conus magnus], indicado para o tratamento da dor neuropática e dor do câncer. Essa toxina originou um produto comercial usado em todo o mundo, chamado Prialt (ziconitida). Comparamos a ação analgésica das duas toxinas. Observamos que a toxina da aranha produz efeito analgésico semelhante, mas causa menos efeitos adversos  por possuir janela terapêutica maior”, destaca.

Mais de 10 anos após a publicação do estudo, Dr. Marcus Vinicius Gomez chefia a pesquisa com a toxina da aranha-armadeira (patenteada com o nome de Phα1β) para desenvolver um analgésico mais efetivo do que a morfina, sem as implicações comuns  dos  opioides – como a tolerância e efeitos adversos do medicamento. Foi comprovado que a toxina da aranha tem efeito analgésico mais duradouro e potente do que a morfina. Além disso, é capaz de  potencializar  o efeito do analgésico da morfina, reduzindo seus efeitos adversos e tolerância ao opioide.

O maior efeito analgésico da Phα1β, quando comparado com a ziconotida, deve-se ao fato de que a toxina, além de ser bloqueadora de canais de cálcio, é também antagonista do receptor vaniloide TRPA1, que também está envolvido com a dor. A toxina foi inicialmente testada por via intratecal, para comparação com a ziconotida, Prialt, usada por essa via. “A administração intratecal de uma droga tem vários riscos e é mais cara, por exigir cirurgia para implantação de bombas para administração da droga aos pacientes. Tendo isso em vista, pesquisas atuais estão voltadas para viabilizar a aplicação da Phα1β por via endovenosa”, explica Dr. Marcus Vinícius, que completa: “a ziconotida, Prialt não tem efeito por via endovenosa e, em trabalho recente, mostramos que a Phα1β tem ação analgésica por essa via, viabilizando portanto seu uso para administração endovenosa”.

Recentemente os estudos da Dra. Maria Helena com o fator erétil e os do Dr. Marcus Vinicius Gomez, com as ações analgésicas, foram publicados no British Journal Pharmacology, e classificados entre as 20 melhores publicações da América Latina daquela revista.